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CRÍTICA: Sexo/Crime, Soho Theatre Londres ✭✭✭✭
Publicado em
Por
pauldavies
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Paul T Davies analisa Sex/Crime, a nova peça de Alexis Gregory, agora em cena no Soho Theatre.
Foto: Matt Spike Sex/Crime
Soho Theatre
22 de janeiro de 2020
4 estrelas
A mordaz e poderosamente cómica peça de Alexis Gregory decorre num sótão convertido em sala de jogos — um espaço gay onde os homens podem concretizar as suas fantasias dentro de um guião sexual, tudo pré-combinado, com termos e condições à espera de serem assinados. Dois homens, identificados apenas como A e B, encontram-se para recriar os assassinatos de um famoso serial killer gay, pelo seu próprio prazer e pelo preço certo. Só que B quer ser levado até à morte, e é aqui que Gregory explora as construções mediáticas e a glamourização da violência.
Foto: Matt Spike
A peça faz muitas outras coisas; aborda a homofobia interiorizada, o ato de absorver o ódio horrendo dirigido a homens gays. Impressionou-me o facto de a peça não fugir ao que se costuma chamar o “lado mais sombrio” do sexo entre homens gays — sadomasoquismo e troca de poder —, o que é uma diferença refrescante face aos corpos jovens, musculados, depilados e a uma sexualidade gay quase higienizada que vemos com mais frequência. É também altamente satírica e muito divertida, acertando em cheio nos seus alvos, à medida que Gregory ataca a cena queer, os media e o fascínio do público pelo homicídio. Ninguém chama a um assassino heterossexual “serial killer heterossexual”; porque é que, então, nos casos de assassinos homossexuais a sexualidade é sempre destacada?
Foto: Matt Spike
Jonny Woo é intensamente enigmático como A, o homem que manda, o mestre — ou será? Ele guionou os cenários na perfeição; tudo montado, e, enquanto a sociedade se desagrega lá fora, a sua sala de castigo é um “espaço seguro”. O próprio Gregory interpreta B, numa performance de camp elevado, como o dramaturgo afirma, e a violência é altamente estilizada, com a encenação a tirar excelente partido dos blackouts. Os dois trabalham muito bem em conjunto, e a peça fez-me lembrar, em termos de estilo, alguns trabalhos de Berkoff, sobretudo Decadence. Também me recordou uma das primeiras peças norte-americanas sobre a SIDA, Night Sweat, de Robert Chesley, em que homens com SIDA reservam a sua saída num clube concebido para lhes proporcionar as mortes que desejam. Achei que teria sido interessante baixar um pouco o nível de camp, para fazer sobressair melhor as nuances do texto; a encenação toca muito numa só nota. O clássico de Ravenhill, Shopping and Fucking, é outra influência, e o naturalismo desse texto evidencia de forma mais eficaz temas como o comercialismo e o poder.
Ainda assim, é uma hora memorável no teatro, e há uma boa reviravolta que deixa uma impressão forte. Ambos os intérpretes são atrevidos, sensuais e enigmáticos, e é mais uma forte produção LGBTQ no Soho Theatre.
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