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CRÍTICA: Don Juan Em Soho, Wyndhams Theatre ✭✭✭✭
Publicado em
29 de março de 2017
Por
julianeaves
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David Tennant Don Juan em Soho
Wyndham’s Theatre
Terça-feira, 28 de março
4 Estrelas
Este é um espetáculo que vive — ou morre — da interpretação central do protagonista e, quando essa é entregue como aqui, na pessoa do imensamente talentoso David Tennant, ele vive. Tennant oferece aquilo que o West End adora: uma atuação arrebatadora, que parece totalmente em casa no interior dourado, luxuoso e ornamentado deste requintado teatro fin-de-siècle. É lânguido, despreocupado, veloz como mercúrio e intensamente concentrado em cada instante, recorrendo a uma enorme gama de recursos e truques para fazer um papel de grande fôlego passar num instante, numa apresentação leve como uma pena que irá agradar aos seus muitos fãs e, podemos ter a certeza, conquistar mais alguns novos.
À sua volta, o autor-encenador Patrick Marber reuniu um elenco numeroso e variado de cúmplices, amantes, admiradores e inimigos, nesta atualização hilariante, minuto a minuto, da elegante versão de Molière da famosa lenda sobre um homem dado à aquisição compulsiva de amantes e à evasão permanente do amor. O título coloca-o — e às suas aventuras — em Soho, e o próprio teatro fica ali ao lado, mas isto não é mais uma peça ‘sobre’ um bairro de Londres do que é uma epístola acerca dos direitos e deveres da aristocracia (‘Don’ dificilmente é um título britânico, afinal). É, contudo, uma tentativa corajosa de tornar novo — e refazer para hoje — um enredo quase tão antigo quanto a própria História.
David Tennant
Nessa empreitada, Marber merece farta admiração. Não é pequeno feito seguir as pisadas de Jean-Baptiste Poquelin, Lorenzo da Ponte, Pushkin, Neil Bartlett, et al. O que oferece — tanto no texto como na produção que aqui assina enquanto encenador — é um porta‑manteau estilisticamente eclético de cenas arrancadas de um dia na vida do grande libertino, à medida que a némesis se aproxima e um grande e terrível acerto de contas se prepara para cair sobre o nosso anti-herói. A narrativa apresenta-nos cenas num hospital, num hotel, numa praça pública, entre outros locais, com dezenas de papéis interpretados pelo elenco. Há até uma sequência prolongada num clube, adornado por uma impressionante reprodução em tamanho de parede de ‘A Morte de Sardanápalo’, de Delacroix. A famosa peça de Byron em que esse quadro se baseia é referida nas tiradas espirituosas do nosso Juan e do seu fiel faz‑tudo, Stan (o afável, mas no fim de contas superficial e venal Adrian Scarborough), pelo que não nos surpreende ver uma cópia do Louvre a pairar sobre nós. Ainda assim, convida a comparações.
Tennant não. Está constantemente em movimento, ou deliberada e irritantemente imóvel. Sempre, domina o palco e faz com que tudo corra ao seu ritmo. Isto fascina-nos, e esquecemos quaisquer questões incómodas que possamos ter sobre a lógica (há alguma?) do comportamento da sua personagem: custa chamar ao que ele faz uma ‘criação de personagem’, porque a figura do Don parece negar e refutar quaisquer ideias convencionais sobre o que uma personagem deve — ou pode — ser.
Adrian Scarborough, David Tennant e Gawn Grainger em Don Juan em Soho.
Já o resto do elenco não. Scarborough oferece-nos um tipo pendura demasiado conhecido; comprometido e sem coluna, mas de algum modo — no fim — perdoável. A carranca de reprovação paternal que é o Louis de Gawn Grainger, embora com menos meios ao seu dispor, produz o mesmo efeito. Tal como a Elvira maltratada de Danielle Vitalis... até certo ponto. Contudo, com a sua personagem começam a aparecer as primeiras fendas realmente sérias no edifício: temos de acreditar, de uma forma ou de outra, na realidade de alguém tão boa quanto ela ser tão estúpida como a peça a apresenta. Na vida real, não teríamos dificuldade em compreender isso, mas em palco é mais difícil de vender. Com um irmão que se parece com Malcolm X (o Charles empenhado de Adrian Richards), é ainda mais complicado, sobretudo quando o pai, um antiquado empedernido e reacionário, parece ter acolhido no seu amargo coração a nora (e a família) que não é, definitivamente, do NQOS. Como é que isso aconteceu?
Membros do elenco de Don Juan em Soho
Quando Mozart tinha estas personagens, tornou-as todas bastante semelhantes entre si, pelo que é sempre possível racionalizar que, pelo menos, todas ‘soam’ como se pertencessem ao mesmo horrível enredo em que o argumento as atira. Aqui não. Marber deleita-se com a multiplicidade de modos, estilos, registos, dialetos, timbres e origens do seu elenco, tanto que tem de confiar no ato central ainda verde de Tennant para juntar tudo — e manter tudo unido — até ao momento da sua morte. (Ah, desculpe, não sabia que ele morre?)
No cenário deslumbrante, mas simples, de Anna Fleischle (que também assina os excelentes figurinos), e com a belíssima luz de Mark Henderson, ao som da poderosa banda sonora de Adam Cork, com o design de vídeo moderno de Dick Straker e a movimentação rápida, bem West End, de Polly Bennett, Marber é mais do que brilhantemente apoiado pela sua equipa de topo. Vá, para desfrutar de tudo isto — e do resto do elenco também (Theo Barklem-Biggs, Mark Ebulue, Mark Extance, David Jonsson, Dominique Moore, Emma Naomi, Alice Orr-Ewing, Himesh Patel, William Spray e Eleanor Wyld). Se, no fim de tudo, não lhe tocar propriamente o coração, bem, é porque provavelmente não tem um — tal como o pobre Don. Tente perdoar-lhe. O resto é divertidíssimo.
Fotos: Helen Maybanks - ver outras imagens de Don Juan em Soho
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