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CRÍTICA: Big Shot, Centro Irlandês de Londres ✭✭✭
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Por
julianeaves
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Big Shot
London Irish Centre
3 Estrelas
Há uma verdadeira arte em desenvolver um novo musical — e aqui está um exemplo de como esse processo pode ser tão difícil quanto recompensador. Lauren Gaffney é a criadora extraordinariamente talentosa desta obra: escreveu o libreto, a música e as letras, dirigiu a encenação e ainda deu as deixas a partir do fosso da orquestra. Ainda no início dos seus vinte anos, no começo deste verão Lauren e a sua produtora, Grainne MacNeill, chegaram a Londres para uma breve visita com uma apresentação de workshop, simples e sem adornos, do seu primeiro projeto: uma história transatlântica de amor, crime e aventura que acabara de vencer o primeiro prémio num concurso de novos musicais em San Diego. Toda a equipa — atores e músicos — financiou-se a si própria e pagou do próprio bolso as viagens desde a Irlanda, tanto para a Califórnia como para Camden. Isso diz muito sobre o seu compromisso, a sua dedicação e — acima de tudo — a sua confiança no que estão a fazer. Cada um deles poderia contar uma história tão empolgante e audaz como a de Carrie, a personagem central, que deixa a Irlanda para começar uma nova vida em Nova Iorque.
O mais notável aqui é que tudo isto aconteceu porque as pessoas envolvidas fizeram com que acontecesse. Foi mesmo um grupo de miúdos a montar um espetáculo e a convidar algumas das figuras importantes do West End, bem como gente de teatros Off-West End e do circuito fringe, para verem o que tinham para mostrar e, quem sabe, fecharem aquele grande acordo que os transformaria em estrelas. Sim, o projeto tem mesmo essa energia crua, inocente, talvez ingénua. E também tem talento — muito, mesmo. O elenco, Donal Brennan, Jade Young, Sean McMahon, Niamh Chambers, Gavin MacDermott, Cormac O'Broin, Lynn Redmond e Orla Sheridan, atua com energia abundante, boas vozes e uma coreografia inteligente (criada por dois elementos da companhia). E a banda de seis toca lindamente sob a direção de Jake Curran.
Na Irlanda, não existe verdadeiramente uma infraestrutura para criar trabalho deste género, o que torna esta conquista ainda mais impressionante. Toda a gente tem outro emprego — ou dois — e é preciso roubar tempo, a correr, a outras responsabilidades para fazer este trabalho. E, ainda assim, lá estão todos: unidos, a apoiar-se mutuamente e a fazer acontecer algo realmente muito bonito.
A nota-chave aqui são as canções de Gaffney. Com um talento apurado para escrever temas pop com refrões fortes e ganchos certeiros, ela está empenhada em aprender o ofício de escrever para o palco — e começou da melhor forma possível, escrevendo e levando à cena um musical original. As canções em si, interpretadas de forma cativante pelo jovem elenco, parecem contar uma história triangular direta: uma rapariga que tem de escolher entre dois pretendentes — um que lhe conquista a cabeça e outro que alimenta o seu apetite por emoção. A trama vai além disso e apresenta uma variedade de outras personagens, cada uma a dar diferentes cores e estados de espírito à história, desde a escuridão malévola do assassino impiedoso até à palhaçada cómica do irmão tresloucado. O dono do café onde a nossa heroína trabalha é outra figura divertida e, ao mesmo tempo, complexa, enquanto as forças da lei e da ordem rodeiam os jovens apaixonados com a implacabilidade de tubarões em busca de presa.
Se o tom do espetáculo ainda parece um pouco instável, puxado para um lado e para o outro pelos acontecimentos, em vez de se manter firme, e se a estrutura do libreto ainda é algo incerta, talvez seja porque Gaffney ainda não encontrou o encenador certo para pegar nas rédeas e, com uma produção, dar maior sentido de forma e definição a esta aventura picaresca. Ou, melhor dizendo, “não tinha” encontrado? As últimas notícias são que, depois desta breve passagem por Camden Square, está a surgir interesse por parte de um produtor londrino. Se assim for, é provável que vejamos uma proveitosa partilha da experiência do Reino Unido com este fantástico novo talento da República. E, se nascer uma parceria destas, talvez venham mais. Se os resultados forem tão bons como estes, então é algo por que vale a pena ansiar. Em grande.
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