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NOTÍCIAS

CRÍTICA: A Megera Domada, RSC no Barbican Centre ✭✭✭✭

Publicado em

11 de novembro de 2019

Por

sophieadnitt

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Sophie Adnitt analisa A Megera Domada, de William Shakespeare, numa produção da Royal Shakespeare Company apresentada no Barbican Theatre, em Londres.

Claire Price como Petruchia em A Megera Domada. Foto: Ikin Yum A Megera Domada

Barbican Centre

Quatro estrelas

Tem havido muito debate nos círculos artísticos sobre se devemos continuar a levar à cena A Megera Domada. A produção de 2006 da Propeller apresentou este relato de abuso conjugal com um elenco inteiramente masculino, sublinhando a violência do texto com resultados perturbadores. Nesta versão da Royal Shakespeare Company, com encenação de Justin Audibert, volta-se a brincar com o género. Desta vez, Pádua é uma sociedade matriarcal, onde as mulheres caminham pelas ruas com espadas penduradas no cinto e as mães negociam os seus filhos subversivos com quem pagar mais. Baptista Minola (Amanda Harris, excelente) recusa-se a deixar o seu filho mais novo, Bianco (o hilário e lamentavelmente subaproveitado James Cooney), casar com qualquer um dos seus muitos pretendentes até que o mais velho, a ‘enfadonh@’ Katherine (Joseph Arkley), esteja emparelhad@. Entra em cena Petruchia (Claire Price), que chega a Pádua com um único objetivo: casar por dinheiro. Ao saber da fortuna de Minola, Petruchia está convencida de que consegue domar a obstinada Katherine, por quaisquer meios necessários.

Claire Price e Joseph Arkley. Foto: Ikin Tum

A Petruchia de Claire Price é um prazer de ver — no início, pura autoconfiança selvagem, a ocupar espaço sem pedir licença e sem nunca se conter. Depois começa o abuso e percebemos que Petruchia é daqueles tipos desagradáveis que parecem encantadores até, num instante, virarem e revelarem a sua verdadeira face, aterradora.

Apesar de todo o bramido e fúria à sua volta, Arkley interpreta Kate com enorme dignidade. Desde o início, está só, ignorad@, continuamente preterid@ em favor de Bianco, e por momentos perguntamo-nos se a “megerice” não será, afinal, timidez; um introvertid@ num mundo de personalidades enormes (e são enormes — aqui há muito pouca subtileza). Enquanto Bianco e os outros homens exibem madeixas compridas e impraticáveis, o cabelo de Kate está rapado rente — mais uma vez, destacad@ dos restantes, diferente, uma anomalia.

Emily Johnstone e Laura Elsworthy. Foto: Ikin Yum Depois Kate e Petruchio encontram-se, e uma força imparável choca com um objeto inamovível; por um momento parecem ideais um para o outro. Kate entra de cima e quase parece parar ao avistar Petruchia. Trocam um olhar por instantes antes de ela desviar o rosto e, quase para si, levar a ponta dos dedos ao coração — ai não, ele é giro. É um raro vislumbre de uma suavidade surpreendente numa produção que parece preferir a bravata. Há a sensação de que Petruchia ama mesmo o seu rapaz “megero” e, quando no final o chama para testar a sua obediência, lê-se como se o estivesse a defender do escárnio dos outros. Noutra vida, poderiam ser um bom par — mas não neste mundo.

Porque, no fim de contas, continua a ser uma peça sobre uma relação abusiva, e a segunda parte da noite torna-se verdadeiramente desconfortável à medida que Petruchia vai, lentamente, desgastando a resistência de Kate, sem que ninguém ouse intervir para ajudar. Arkley, como Kate, oferece um estudo cativante de desgosto desesperado e solitário. Enquanto toda a gente à sua volta joga o espetáculo como uma farsa, entrando e saindo em ritmo acelerado pelas muitas portas do belíssimo cenário de Stephen Brimson Lewis, Arkley interpreta-o como drama a sério — até como tragédia. Só no final da peça cede, deixando cair a mão sob o pé da sua esposa com um solavanco exagerado que provoca mais gargalhadas do que parece adequado. Kate finalmente compreende o género em que se viu enredad@ — mas a que preço?

Amelia Donkor e James Cooney em A Megera Domada. Foto: Ikin Yum

Noutro ponto deste elenco notável, Sophie Stanton é uma delícia cómica, deslizando pelo palco como se estivesse sobre rodízios, e a alegria lúdica de Laura Elsworthy como a astuta Trania é irresistível. Mas esta troca de géneros acrescenta algo a esta peça, francamente, desagradável? Por um lado, evidencia como, no original, as filhas são tratadas e comentadas como propriedade a negociar. E, tirando o célebre discurso final de Kate e algum pingue-pongue com Petruchia, el@ não tem assim tanto para dizer quando comparad@ com algumas das outras heroínas de Shakespeare. É um pouco alarmante como uma mulher pode ficar em segundo plano, sem qualquer intervenção na conversa, e isso ser muito menos notado do que aqui, quando é um homem a ser silenciado — ao ponto de nos apanharmos a pensar: ‘Pois. Então o Kate e o Bianco não disseram… absolutamente nada… há imenso tempo…’

O comportamento “megero” é mais tolerado no nosso mundo quando vem de homens — um homem pode ser um ‘enfadonho briguento’ e isso é desculpado como coisa de ‘rapazes’. Quando uma mulher se comporta assim, está inerentemente errada e tem de ser domada. Torna-se interessante, então, sermos confrontados com um mundo em que o ‘rapazes serão rapazes’ simplesmente não pega. Nesta versão, Shrew transforma-se numa peça sobre mulheres profundamente falíveis e muito inteligentes, com a agência e a autoconfiança tipicamente atribuídas aos homens; mulheres imperfeitas, que fazem planos realmente parvos e, ainda assim, acabam por se safar.

Se tivesse de apontar um defeito principal nesta interpretação, seria a aparente falta de empatia de Audibert por Kate. Ao privilegiar a recuperação das gargalhadas nesta comédia (e consegue — é, admitidamente, muito engraçada, sobretudo nas cenas de Bianco), Kate acaba por sair a perder. O público não tem tempo para assimilar o abuso infligido a Kate antes de as piadas voltarem — parece um pouco que isso é varrido para debaixo do tapete para podermos regressar às gargalhadas.

Devemos deixar de encenar Shrew? Eu digo que não — mas, tal como Arkley nesta produção por demais fascinante, precisamos de começar a interpretá-la como a tragédia que é.

 

Em cena até 18 de janeiro de 2020 no Barbican Theatre, Londres

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