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CRÍTICA: As Cuecas de Vitória, Soho Theatre ✭✭✭
Publicado em
6 de novembro de 2018
Por
julianeaves
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Julian Eaves critica Victoria's Knickers no Soho Theatre, apresentado pela National Youth Theatre Rep Company.
O elenco de Victoria's Knickers. Foto: Helen Murray Victoria's Knickers
Soho Theatre
1 de novembro de 2018
3 estrelas
Esta farsa musicalizada pelos primeiros passos na carreira de uma ex-rainha “trabalhadora” tem com a série Victoria, da ITV, a mesma relação que Carry On Cleo tem com o espectáculo hollywoodiano de Liz Taylor, Cleopatra: é uma paródia trivializadora, espalhafatosa, “cool”, divertida e anárquica. E, se é o tipo de pessoa que gosta desse género de coisa, então esta é precisamente a coisa de que vai gostar. Imagine Early Morning, de Edward Bond, passado por um triturador de hip-hop, na história assumidamente moderninha de Josh Azouz, que se contorce para ser “cool” e falar “da rua”, e começa a apanhar o seu rumo errático. Aqui, o que importa é fazer uma pose devastadoramente calculada. Qualquer outra consideração fica, mais ou menos, em segundo plano.
A National Youth Theatre Rep Company, que por estes dias também está em cena nesta mesma morada na reposição de 'Consensual' (crítica publicada aqui recentemente), surge agora num registo ainda mais leve, na produção polida e frenética, frenética, frenética de Ned Bennett. Ele nunca deixa o ritmo abrandar, o que até convém numa história que se leva demasiado a sério e tem sérios problemas com profundidade e reflexão. As “letras” dos vários números musicais foram remendadas pelo autor em conjunto com o compositor de nome trendy Chris Cookson “e membros da National Youth Theatre”, o que talvez ajude a explicar a sua hiperfuncionalidade e falta de visão.
Alice Vilanculo e Oseloka Obi em Victoria's Knickers. Foto: Helen Murray Não se diga, contudo, que estas falhas sejam algo que o público do Soho Theatre esteja com pressa de apontar à produção: aparentemente, há uma vontade enorme de se deixar agradar por mais uma fantasia escapista sobre a família real que simplesmente se recusa a desaparecer. Se a NYT acha mesmo que este é o tema mais importante que conseguiu arranjar, então que assim seja. Mais uma vez, desviamos os olhos — em conjunto — das preocupações do aqui e agora (alguém na NYT alguma vez ouviu falar de “Europa”?) e fixamo-los, de forma enevoada e pouco focada, num passado distante, a verdadeira “pátria” do nosso interminável Mito Nacional.
O elenco de Victoria's Knickers. Foto: Helen Murray
Quem hipnotiza aqui é todo o elenco do outro espectáculo, mas agora com papéis mais folgazões. Alice Vilanculo volta a roubar a cena com a sua compostura e presença em palco no papel principal, e Jamie Ankrah faz de contraponto: uma figura aparentemente retirada da História (não vamos perder tempo aqui com a Irlanda ou a Índia...), que se notabilizou pela sua fascinação cleptomaníaca pela roupa interior da soberana. (A sério, NYT, se é esse o nível a que querem trabalhar....) As irmãs do larápio, Laurie e Isabel (Laurie Ogden e Isabel Adomakoh Young... sim, NÃO é coincidência?) protagonizam a única cena verdadeiramente dramática do espectáculo: uma repetição da cena de execução inspirada em Texas Chainsaw Massacre que a ENO usou na sua produção de Mazeppa, de Tchaikovsky. É típico desta produção, porém, que enquanto a ENO conseguiu um efeito realmente aterrador, os palhaços da NYT ficam-se por uma partida de estudantes. Se estiver nessa onda, óptimo: caso contrário, ao fim de algum tempo, a insistente brincadeira adolescente pode tornar-se só um bocadinho irritante.
Aidan Cheung, Muhammad Abubakar Khan e Olivia Dowd em Victoria's Knickers. Foto: Helen Murray
Muhammad Abubakar Khan, como Lord Conroy, é quem vai sendo cortado pela serra nessa cena, e encara a sua morte com a energia e convicção de sempre. Um pouco aborrecido com as escapadelas da futura noiva surge o Albert elegante de Oseloka Obi, que até se aventura a falar alemão (da próxima vez, NYT, por favor, contratem um coach de línguas?). E há ainda uma carrada de outras personagens interpretadas por Simran Hunjun (Duquesa), Gary (Jeffrey Sangalang, também no papel de O Pescador), Christopher Williams (Len), Jay Mailer (Ernst, o Folião e — não estou a brincar — Dr Feel Good), Olivia Dowd (Brunhilda, Cecil e também Sonia), Leah Mains (mais uma actriz a interpretar praticamente a si própria, como “Leah”), Fred Hughes-Stanton (idem, e também o Agente Troy), Marilyn Nnadebe (Árbitra — sim, nesta revisitação de drama de época até há árbitras mulheres), Aidan Cheng (a fazer um bom trabalho como o principal vilão do espectáculo, Sasha), Francesca Regis (Toni), com música ao vivo em palco (além do que emana do desenho de som de Giles Thomas) por Kazuma Costello, Natalie Smith e Isabelle Stone.
A apresentação dos números musicais (Direcção Musical, Arlene Naught; Produção Musical, Jason Elliot) é, sem dúvida, o principal trunfo da produção. O desenho sombrio, até algo grosseiro, de Hannah Wolfe chama a atenção, embora seja obviamente feito no mais barato possível, mas — tal como o texto — não parece ter para onde ir. E Jess Bernberg ilumina tudo com clareza, garantindo que seguimos obedientemente as muitas mudanças de foco, tanto em palco como fora dele. Meghan Doyle é a assistente de encenação de Bryan Forbes. Consigo perceber porque é que companhias como a NYT sentem que têm de se manter “relevantes”, mas a pergunta tem sempre de ser: “relevantes para quê?”.
Em cena até 10 de novembro de 2018
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