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ENTREVISTA: Philip Ridley, Contando Histórias
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Phil Matthews encontra o aclamado dramaturgo Philip Ridley. A sua nova peça, Feathers in the Snow, estreia este mês no Southwark Playhouse.
Entrar no Southwark Playhouse durante o dia é uma experiência estranha. Desapareceram as luzes atmosféricas e a energia que fazem parte do carácter tão conhecido do teatro. A sensação é mais a de um clube nocturno depois do evento. A equipa de limpeza já esfregou os vestígios da anterior festa hedonista, e ficamos com a estrutura despida do edifício — com todos os defeitos à vista. No entanto, sentado no bar do teatro, o momento torna-se bastante pungente, tendo em conta que o espaço está nos seus últimos dias de vida aqui, uma mudança que permitirá a remodelação da zona da estação de London Bridge. Enfim — se estas paredes falassem.
Vou encontrar-me com Philip Ridley, o aclamado autor de The Pitchfork Disney, Mercury Fur e Shivered. Esta última estreou no teatro no início do ano numa produção de enorme sucesso, e agora ele está de volta, tendo sido escolhido para apresentar a derradeira proposta do Southwark neste espaço, antes de o teatro se mudar para instalações temporárias em Elephant and Castle. Feathers in the Snow, um espectáculo para toda a família, é uma escolha curiosa para Ridley (na foto à direita), que é mais conhecido pelos seus trabalhos contundentes e, por vezes, mais controversos. Embora ele tenha escrito livros para crianças. Bastantes, aliás. E muitos deles também premiados. Na verdade, ao ler o CV ecléctico de Ridley, fica-se com a sensação de que estamos perante alguém que, criativamente, faz o que quer, quando quer. Como é possível uma carreira abarcar ser performer, pintor, romancista, dramaturgo, argumentista, cineasta, realizador e fotógrafo? E ainda triunfar em tudo isso?
“Para mim, estou apenas a fazer uma coisa”, diz Ridley. “Mas esse é o paradoxo que sempre tive ao falar disto. Tudo o que faço é contar histórias.”
Impressiona-me o quão educado e discreto Ridley é. Artistas do seu calibre não deveriam ser sérios, introvertidos e ligeiramente difíceis? Pelo contrário: Ridley é acessível e cativante, com uma fome evidente pelo seu trabalho.
“Às vezes ocorre-me uma história e, se a vejo em termos puramente visuais, então provavelmente é um filme”, continua. “Se ouço uma história a ser contada com personagens a conversar entre si, então provavelmente é uma peça. Se vejo uma história como uma sequência de imagens, então isso pode ser uma sequência de fotografias ou pinturas. Portanto, a história dita o meio de que precisa para ser contada. Só me ocorreu realmente — até ser, de certa forma, castigado por muita gente — que eu estava a fazer coisas diferentes; para mim é só uma coisa: contar histórias.”
É uma forma maravilhosa de encarar a criatividade — e uma que, por exemplo, é bastante abraçada nos Estados Unidos. Em contraste, é quase como se a Grã-Bretanha mantivesse um certo snobismo em relação a artistas, sobretudo actores, que sequer flirtam com outra disciplina. Lembro-me de um amigo meu, ex-actor, que foi avisado, sem meias palavras, por um Director Artístico de renome: se ele fosse encenar uma peça, teria de abandonar a representação de imediato, ou arriscava nunca ser levado a sério em nenhuma das áreas. Engoliu o conselho e hoje é um encenador premiado — uma ambição que talvez não tivesse ganho forma se tivesse ignorado o mentor. No fundo, sei que o estômago do meu amigo dói de saudades de voltar ao palco, mas não se atreve. Pergunto-me o que Ridley pensa de uma indústria que pode ser tão limitada.
Ele dá um gole à bebida e pensa por um momento sobre porque é que o problema é tão “endémico” no Reino Unido e “não tão mau” no resto da Europa, até.
“A ambição é mal vista neste país; os ingleses não gostam de pessoas ambiciosas”, diz. “Nunca gostaram. Isto tudo está a mudar um pouco. Quando fiz o meu primeiro filme, isso começou a ganhar forma no fim dos meus 20 anos. Na altura, era escandalosamente jovem para estar a fazer um filme neste país. Supostamente devias ter trabalhado vinte anos na BBC e ‘ganhado as asas’. Vinte anos de desilusão às costas, antes de finalmente começares a fazer outra coisa.”
Southwark Playhouse
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Ridley estudou pintura na St. Martin’s School of Art nos anos oitenta. Na altura, isso significava literalmente pegar num pincel, mergulhá-lo em tinta a óleo e aplicá-la na tela. Se fizesses qualquer outra coisa, era “um bocado suspeito”, explica.
“Muita gente com quem falo, que faz uma coisa, faz outras também — só que não fala nisso”, acrescenta. Menciona o dramaturgo Howard Barker, que recentemente teve uma peça em cena no Print Room e estava a expor pinturas ao mesmo tempo. O realizador norte-americano David Lynch também é pintor e músico. O realizador britânico Peter Greenaway também pinta.
Ridley abraçou a sua própria ambição desde cedo, tomando decisões de carreira que muitas vezes o levavam para novas direcções criativas sem grande planeamento e “para grande irritação das pessoas que tentavam orientar a minha carreira”, sorri. “Sempre fui — não de propósito, mas de algum modo — contra o que era a ideia dominante sobre o que eu devia fazer a seguir.”
Não é surpreendente, então, que Ridley tenha passado para o cinema. Escreveu e realizou duas longas-metragens — The Reflecting Skin, que arrecadou 11 prémios internacionais, e The Passion of the Darkly Noon, que lhe valeu o prémio de Melhor Realizador no Festival de Cinema do Porto. Mas foi ainda nos anos oitenta, enquanto estudava, que Ridley conseguiu entrar numa produtora de videoclipes para ganhar “mais algum dinheiro de bolso” e, mais tarde, teve a oportunidade de uma vida: escrever o argumento de The Krays, com Gary e Martin Kemp.
Ridley entrou na empresa a fazer biscates, depois storyboards, mas não demorou até ser usado como uma “bola de pingue-pongue” de ideias — uma espécie de ‘consultor’ para realizadores em vários projectos. Era o auge dos videoclipes pop, com produtores a receberem muito dinheiro para os fazer. Esta empresa em particular trabalhava com os Spandau Ballet e Ridley cedo percebeu que os famosos irmãos Kemp estavam desejosos de regressar à representação e determinados a abordar os infames irmãos dos anos sessenta — Ronnie e Reggie.
“O Gary e o Martin eram do East London, e parecia o casting perfeito, porque queres dois irmãos que partilhem essa química”, recorda Ridley. “Eu disse, ‘porque não me deixam tentar The Krays?’ As pessoas tentavam pôr este filme de pé há vinte anos e nunca tinha acontecido, por isso fui-me embora e escrevi-o simplesmente, da forma que achava que devia ser feito.” Gary Kemp, Billie Whitelaw e Martin Kemp em The Krays.
Ridley cresceu no East End e, desde cedo, foi exposto às muitas histórias que alimentavam as lendas dos famosos gangsters. “Todas as minhas tias tinham dançado com o Reggie Kray algures. Eu vi um deles quando era criança. Conhecia a lenda — e foi a lenda deles que me fascinou.”
Abordar um tema destes como primeiro argumento é inegavelmente corajoso, e é esta ambição que torna o próprio Ridley fascinante. A nível narrativo, entrar no detalhe devia ser um campo minado, e ele admite que a história deles era “complicada”, porque entravam e saíam da prisão o tempo todo. A chave, recorda, foi olhar para aquilo pelo “lado mítico”.
Sem medo de seguir o instinto, Ridley fez uma escolha arrojada logo no início. “A primeira coisa que fiz — que chocou toda a gente na altura — foi dizer que não íamos ter o Gary ou o Martin no filme durante os primeiros 40 minutos”, conta Ridley. “Íamos concentrar-nos na infância dos rapazes. Isso foi um grande ponto de discórdia durante algum tempo, porque, obviamente, eram o Gary e o Martin que traziam o dinheiro.”
“Olhando para trás, aquilo que levei para o projecto é exactamente aquilo que ainda hoje levaria. Era tudo sobre infância, personagens femininas fortes de East London, era sobre crocodilos. Fiz o primeiro rascunho do argumento e não tinha nada de comercial. Mas o Gary e o Martin adoraram.”
Actores de renome como Steven Berkoff, Victor Spinetti e Billie Whitelaw aderiram ao projecto. Mostrando um apoio significativo ao guião de Ridley, Whitelaw avançou para o papel exigente de Violet Kray. “Ela era perfeita — e sabia-o. Não fazia cinema há imenso tempo. Voltou porque sabia que conseguia arrasar. Foi tão encorajadora. Disse-me: ‘escreveste aquilo que querias escrever no teu primeiro filme e não mudaste uma palavra — e poucas pessoas conseguem fazer isso’.” Mercury Fur, Trafalgar Studios (2012)
É uma filosofia que orientou a carreira de Ridley: ser firme nas ideias, com uma atitude de “é para fazer, faz-se”. Isso significa que dificilmente encontrará uma peça dele a ganhar pó numa gaveta. Este é um artista que faz acontecer — participante, não apenas alguém que fica à espera — levando o projecto até ao fim. “Assim que está escrito, só quero pô-lo em cena”, diz Ridley.
É também por isso que ele “na verdade nunca” aceita encomendas teatrais. Apresentar uma ideia em pitch vai simplesmente contra o ethos de Ridley. “Não consigo trabalhar assim. Tenho de dizer ‘querem a próxima peça?’ Mesmo que eu me sentasse e dissesse ‘vou escrever isto sobre isto e aquilo’, ao fim de dez páginas mudava. Tornava-se outra coisa. Nada do que alguma vez comecei a escrever é aquilo que acabei por escrever em qualquer projecto”, explica com convicção. “Está sempre a mudar e é sempre orgânico.” É uma forma corajosa de trabalhar, mas Ridley admite que gosta de correr riscos. E, meu Deus, já correu riscos que cheguem. A reacção adversa que acompanhou a sua peça de 2005 Mercury Fur, com Ben Whishaw, deixou Ridley “de boca aberta”. Depois da estreia no Menier Chocolate Factory, tornou-se um enorme caso polémico entre os críticos. Os próprios editores de Ridley, acreditando que talvez ele tivesse ido longe demais, chegaram mesmo a recusar imprimir o texto. Uma peça sobre gangues, violência, drogas e o assassinato de uma criança com um gancho de carne irá sempre provocar reacções — mas Ridley não antecipou que amigos lhe virassem as costas. “É absolutamente verdade. Disseram: ‘Afinal o que é que estás a tentar dizer com isto? Estás a tentar promover o assassinato de crianças? É isso que estás a fazer?’ Fiquei mesmo de boca aberta.”
Agora, claro, não há sequer um sinal de receio. Ridley é demasiado inteligente para esse tipo de disparates. “Foi uma grande produção, com o Ben Whishaw, porra — não há como correr mal! Mas por alguma razão, a reacção da imprensa estava determinada a não ver do que é que aquilo tratava. Estavam determinados a vê-la como um festival de choque”, recorda.
Isso não impediu o resto do mundo de querer a sua fatia, já que Mercury Fur estreou depois numa série de outros países; incluindo Estados Unidos, Austrália, Alemanha, Japão, França, Itália, Malta, Turquia e República Checa. A recente reposição no Trafalgar Studios, em Londres, viu a reacção negativa original da imprensa inverter-se — uma premissa ilógica que diverte Ridley. “Não é que eu não ligue ao que os críticos dizem. De certa forma, é irrelevante, porque já os vi mudar de opinião de um espectáculo para o outro. O que disseram há cinco anos, não vão dizer agora. Já tive muitas peças completamente arrasadas na estreia e, quatro semanas depois, estavam no ‘destaque da semana’”, diz.
“Não é que eu faça questão de os ignorar, ou algo do género. Mas essa não é a história que está a ser contada. A história sobre qualquer obra de arte acontece três ou quatro anos depois.”
The Pitchfork Disney, reposição no Arcola Theatre, 2011 Olhando para trás, para a primeira peça de Ridley em 1991, não havia como ele antecipar a mudança de velocidade que estava a acontecer na dramaturgia britânica. Em retrospectiva, porém, Ridley foi muito parte da invasão da fantasia e do surrealismo sombrio no teatro — talvez até abrindo caminho. “Eu não sabia nada sobre teatro, nem sequer sabia o que era uma noite de imprensa”, confessa. “Eu só tinha escrito esta coisa chamada The Pitchfork Disney, como uma destilação das coisas que andava a fazer na escola de arte. O meu agente disse: ‘não sei o que é que escreveste, mas nunca li nada igual’.”
“Ninguém percebeu quando estreou. Nas primeiras pré-estreias, as pessoas ficavam ali de boca aberta”, ri-se. “Não se começa conscientemente com a intenção de mudar as coisas. Não sabes quando estás no meio disso. É como não perceberes qual foi o melhor amor da tua vida até ele te deixar. Só aprecias tudo em retrospectiva.”
O processo acabou por ser uma lição enorme. “O Dominic Dromgoole escreveu este livro sobre dramaturgos britânicos, onde diz que eu estava lá todas as noites a deliciar-me e a aproveitar”, diz Ridley, quase de olhos muito abertos. “Não era bem assim — eu estava lá na maior parte das noites a aprender. Eu estava a observar o que funcionava e o que não funcionava, porque já estava a escrever a peça seguinte. Foi uma curva de aprendizagem enorme, para perceber como tudo isto encaixava.” Ridley seguiu com mais duas aclamadas peças para adultos e, depois, desafiou a convenção da única forma que sabe. “Claro que fui e escrevi uns livros para miúdos”, sorri Ridley, com ar cúmplice.
Ensaios de Feathers in the Snow
Na sua mais recente produção, Ridley confirma que tem sido um prazer trabalhar com o elenco de seis “actores muito trabalhadores”, que assumem 72 personagens com fala numa peça que atravessa mais de 500 anos. “É óptimo fazer algo completamente diferente”, diz, depois de um ano pessoalmente difícil e traumático. Apesar de ser um espectáculo familiar com canções, Ridley acredita que quem conhece o seu trabalho vai “reparar em todas as pequenas coisas que sou claramente eu, por assim dizer. Espero que ainda esteja a dizer alguma coisa. É divertido. É mágico.”
Ridley sente-se “honrado” por Feathers in the Snow ser a última produção no espaço actual — uma peça apropriada, que traz uma mensagem de seguir em frente. “É um aceno a encontrar novos caminhos. Essa será a última canção, as últimas palavras que se ouvirão em termos teatrais. Vai ser muito emotivo, acho eu, na última noite.”
Ao terminar a entrevista, fico impressionado com a paixão de Ridley pelo seu trabalho, seja qual for a disciplina em que o apresenta. Ele não só segue o instinto, como se compromete com o trabalho e, mais importante ainda, arrisca. E, além disso, é um tipo mesmo porreiro.
Há um brilho no olhar de Ridley quando lança uma última piada: “Devíamos ter o nosso próprio talk show chamado ‘The Phil’s’ — ‘Afternoon with The Phil’s’!”
Não me admiraria nada que Ridley tornasse qualquer coisa possível. Estou convencido.
Feathers in the Snow está em cena no Southwark Playhouse até 5 de Janeiro de 2013. Mais detalhes.
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